terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

profeta pedro

foi num domingo, às 15 horas da tarde, com o sol ainda brilhando, que Pedro decidiu oferecer todos os seus dentes pela Liandra. os dentes do Pedro, que havia fumado dos 15 aos 22, não valiam muita coisa. uma queda de bicicleta aos 11 fizera com que o canino posterior fosse quebrado a metade. quantos dentes possui um ser humano digno? perguntou ao Miranda, que respondeu com pouca certeza. 'acho que uns 28. tem que ser par né'. Pedro resolveu oferecer 27 e meio aos santos, não se rouba um santo e se vive impunimente.

quanto mais o Pedro olhava para o sol, menos sentia falta dos seus dentes e já começava a imaginar uma vida simples, de brilho de sol, água e purê de batata. ele não queria ouvir conselhos odontológicos. e pouco importava se seu sorriso nas fotografias sofreria um decréscimo substancial. Pedro nunca foi de sorrir muito. só aquele meio sem graça, obrigatório, quase agressor. E ai o Pedro ri porque ele, um ser pensante, um intelectual, um filósofo do interior, está oferecendo todos os seus dentes aos deuses pela Liandra, que não pensa, não filosofa, mas é macia como o diabo.

a boca de Pedro ainda formigava quando chegou para Liandra e disse que a amava mais que são francisco de assis amava os animais. e esses dentes eram dela. os dentes, a boca, os olhos e tudo. a Liandra riu. sem dentes, Pedro parecia um macaco gemendo ruídos estranhos. Pedro fazia o som do vento passando debaixo da porta de madeira, molhado pelo suor e dominado pelo desespero. subiu até a pedra mais quente, não a mais alta, mas a mais quente. Pedro e a pedra. e jogou todos no mar. Pedro, o filósofo sem dentes, fala como um verdadeiro profeta quando o som do vento que sai da sua boca se encontra com o barulho das ondas do mar. aquelas pequenas joias amareladas não fazem falta, ele sabe bem. todos estão surdos.

minha alma chora o teu sangue derramado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

meu box não embaça

tanto tempo passou, tantos foram e voltaram. até eu fui. um pedaço meu de lembrança de porre, hoje caminha por ruas da Irlanda. outro de amizade, espera por uma visita na austrália. os cabelos e a barba cresceram mais. menos a esperança. não é por nada, me apeguei a uma caminhada humilde. o sol tem mais valor e queima minha pele branca. meus pais me amam mais, na mesma medida em que meus defeitos se fazem menos presentes. um menino de rua passa e pergunto se ele quer dividir o frango e o pão. ele aceita e eu fico feliz. esqueço porquê vim, não importa, só importar ir, voltar. dizem que eu tive coragem. não é nada. coragem tem o calango. eu só tinha uma passagem e a necessidade de sentir frio, medo e fome. o reflexo no espelho mantém a dúvida. não sabe se reconhece a si mesmo. o carnaval não chegou, mas já vai acabar. e eu longe. nem o vento, que prometia soprar forte em março, anima planos e nostalgias. o que entristece não são os quilômetros de distância dos que estão longe. são as milhas que separam todos do baú onde me enterrei, esperando você encontrar e cavar com as unhas vermelhas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

até voltar.

eu te conheci no meio da coragem, garota. e hoje, tua coragem é tão maior que a espera, é tão maior que todo esse tempo de agonia, que nem cabe mais nessa cidade cinza, nesse almoço rápido, e nessa respiração forçada. não cabe mais nesses elevadores cheios de botões, nessas caixas de remédio pequenas, debaixo desses guarda-chuvas e dessa ácida certezas de que, por hoje, é o bastante. e ainda que eu não consiga enxergar a partida tão próxima, (perdoai querida, os olhos marejados não lêem passagens de rodoviária com tanta facilidade) agradeço pela outra vida, pelo outro sonho, pelo novo rumo. agradeço pelas marchinhas de carnaval e pelo cigarro, sempre emprestado. abraço e desejo sorte de que encontre um ‘que’, um justo silêncio, porque silêncio não é igual em todo lugar. lá é mais silêncio, é mais azul. pendure as contas e as roupas no varal. aqui não podemos ter um varal (nem a preocupação de correr para tirar as roupas de lá quando chove). logo o outono chega, as folhas trazem a guimba do teu baseado. logo a vida vem dizer que foi difícil, ainda é, mas valeu. saudade é coisa nossa, de gente que segue chorando, consolando e também sorrindo. leva esse teu réveillon, agora é que a vida é nova e começa com uma brisa mais suave, com a linha do mar, com a rima do amor. prazer em conhecê-la.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

âncora, ou canção para se manter no chão

Agora, daqui de cima, ele vê o reflexo de dois corpos. O vidro escuro e embaçado torna o desenho um só. Um corpo disforme, defeituoso. Aí ele te olha bem fundo. Você, apoiada no peito dele, só a luz da TV, distante, ilumina teu rosto. Teu olhar diz a ele que já sabe de tudo, que sabe do fim, da gritaria na porta da casa, da maquiagem escorrendo dignidade em preto, borrando toda tua vida com uma coragem quase latina, irracional.

E sem nenhuma palavra, ele se espanta com vosso final tão bem delineado, se espanta que você saiba de todos os planos dele para arruinar tudo, ainda que não exista plano. E que mesmo sabendo do fim, da mágoa, das cartas; sabendo que ele é a maior decepção da porra da tua vida inteira, você ainda esteja lá. Ele tenta dizer que a vida é assim mesmo, que estamos sempre tentando preencher esse vazio que é o nosso próprio vazio.

Esse vazio que somos nós mesmos, buscando o motivo para continuar, buscando alguém para tampá-lo. Mas ele não diz nada, ele não consegue. Você só tampa a boca dele, assente com a cabeça e derruba uma única lágrima. 'É necessário ser econômica para as horas do pranto' você pensa. E de vez em quando, ele volta nesse quadro. Também é necessário exorcizar demônios de tempos em tempos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

norte

depois de tanto tempo era mesmo estranho entrar novamente na posição de desconforto. permitir-se jogos e encarar qualquer possibilidade como última e irrefutável. era a necessidade de comunicar, impressionar. desafio. ainda que com fumaça, com toda essa confusão e atropelamento do real, é que a gente se pergunta até onde vai.

um trabalho primário de colagem, de buscar harmonia ou caos, mas buscar de verdade, tentando não escorregar. não escorregar demais. e aí eram aqueles olhos baixos entorpecidos que fitavam procurando um dezembro possível dentro daquele maio que ameaçava frio. e só restava ficar impressionado em como alguém poderia me fazer sentir tão distante, estando tão perto de casa, estando tão perto de tudo que eu queria ter coragem para agarrar com força.

aquele hábito .. mas mais que tudo isso era só um sono, um bocejo, um gole tentando disfarçar o medo de levantar e dançar. porque a dança é a recompensa prometida no presente sem culpa. ela era aquele sopro na areia, aquele soco no estômago, copo quebrando e eu sabendo que era uma coisa assim qualquer, maluca e sem perspectiva de paz, mas que por hora, era a coisa mais surpreendente que cabia nos lapsos da razão.

terça-feira, 5 de maio de 2009

do máximo passado, da mínima dor

desci na estação e caminhei pela plataforma repleta de sombras. alguns metros, dois ou três relógios que marcavam contagens de minutos distintas.voltavam no tempo. 10h14 ... 10h11

ignorando qualquer defeito tecnológico eu esperava que as sombra e o tempo regredissem para que eu pudesse domar o engano em apreciar coisas que não entendia bem, e sentir o mundo sempre como essa estrada sem acostamento em que as paradas não são permitidas e a ordem é seguir, sempre seguir

e os rostos pálidos, peles de porcelana. cheios de erros, ainda que meus próprios já assombrassem suficientemente o dia. queimadas as cartas que registravam a falta de aprendizagem com o passado. repetição da rotina que tentavam eclipsar um falso alívio. eu só queria te mostrar que todas aquelas lágrimas eram a verdade que eu poderia te dar. que não conseguia carregar nossa razão, além da fé inabalável de que era sempre possível erguer tudo em nossos quartos escuros. do medo dessa sentença simples de que viver também é coagir para a dor alheia

quarta-feira, 11 de março de 2009

lucky man

Pedro me olhava naquela tarde de domingo. Agora tomava uísque como homem mesmo. Falava sobre como eu era um cara de sorte.

‘Você tem uma bela garota, um bom emprego com um bom salário. Tem um apartamento bacana, um carro, bons amigos, família. É um cara de sorte mesmo’.

Senti o peito engasgar e comecei a arranhar umas notas no violão meio em ar de deboche. Ele voltou a olhar e eu soltei um sorriso meio sem graça, que tentava dizer com todas as palavras que eu não conseguia pronunciar, que eu também não entendia porque é que eu não era tão feliz assim como ele pensava. E era com a camisa meio amassada, com a cara de quem sempre parecia ter acabado de acordar, com o silêncio em meio a uma roda de samba e com aquelas fotografias sempre em preto e branco que eu tentava ceder pistas sobre o abismo que era a arte do meu picadeiro.

Parecia claro agora a releitura que sempre havia feito de tudo, menos das minhas próprias orações e da dificuldade em dizer realmente o que era preciso ser dito. A porta daquele quarto vivia sempre trancada, mesmo depois de ter ido morar sozinho. E era no hábito que eu conservava minhas certezas e meus cheiros. Era um problema bem grande não saber usar aquela coisa toda cronológica ao meu favor. E para o Pedro, coitado, meu gosto por Carlos Gardel era só coisa de gente culta. Nem via na frente do próprio nariz a culpa que eu aceitava por ser sim, um fugitivo, um estranho de todo aquele lugar, e acima de tudo, um impaciente com a ordem da própria vida. Não queria deixar o Pedro sem resposta, rabisquei num papelzinho...

‘Tristeza não tem fim, felicidade sim’, larguei em cima da escrivaninha e fui procurar um bar aberto naquela madrugada.